Galápagos – Kurt Vonnegut

GalápagosJá falamos de Kurt Vonnegut aqui antes, quando indicamos Matadouro 5, um excelente livro. O estilo do autor é mesmo surpreendente. Possui uma escrita bem-humorada e numa narrativa não linear trás personagens excêntricos e situações tão esquisitas que não podem ser consideradas como algo aparte do gênero fantástico. É um escritor que brinca com o leitor. Os fragmentos narrativos vão se aglutinando até que temos, no final, uma visão do todo.

A estória é narrada do ponto de vista de alguém, que no início não se sabe se é um viajante do tempo, ou mesmo a voz narrativa do autor, que conta os fatos em 1986 (e antes disso) do ponto de vista de quem está a um milhão de anos no futuro. (E preferimos não contar… Sem spoilers, né?)

A trama gira em torno dos tripulantes que virão a embarcar num cruzeiro para as ilhas galápagos à partir do Equador. Esta tripulação, e o caminho que os levou até ali são importantes, pois serão estes os fundadores de uma nova humanidade de daqui a um milhão de anos. As ilhas galápagos foram objeto de estudo de Charles Darwin e contribuíram para a formulação de sua teoria da evolução das espécies, nesta temática está uma das premissas do livro: que os seres humanos (e mazelas da humanidade) são fruto de um caminho evolutivo ruim.

O desenvolvimento fragmentado de cada um dos personagens, algumas passagens de suas vidas e como estas se cruzam é um aspecto interessante da obra. É também uma sátira de muitos aspectos de nossa sociedade e do que consideramos ser humano. A maneira que o autor idealiza a humanidade de daqui a um milhão de anos é no mínimo inusitada. A escrita de Vonnegut é espirituosa e deliciosa chegando criar sua própria metalinguagem.  Por exemplo, aparecem asteriscos em algumas palavras na narrativa e que a princípio pensamos que se trata de um erro de editoração, mas adiante descobrimos que existe uma função narrativa. Por essas e outras tantas é considerado por tantos um escritor genial.

Mais um livro que recomendo fortemente. Boa leitura!

Words of Radiance – Brandon Sanderson

Words of Radiance

Words of Radiance

Words of Radiance é o segundo livro da nova série, The Stormlight Archives.). Se inicia logo após os eventos narrados em The Way of Kings. Neste livro, há mais foco na personagem Shallam. Há uma narrativa em flashbacks com foco nela, da mesma maneira que ocorreu com Kaladin no primeiro livro. Ela cresce muito como personagem ao ter seu passado revelado, mas também ao ter que avançar ainda mais como alguém que deve evoluir, agir, e até arriscar sua vida para defender seus ideais, ou ainda, para salvar o mundo. A despeito do foco em Shallam Davar, vemos também muita evolução em torno dos personagens Kaladin, Adolin e Dalinar.

Para quem leu Mistborn e outros livros do autor, a esta altura dá para começar a perceber as semelhanças entre eles, e que não são mera questão de estilo. O mundos fantásticos em que se passam os livros possuem uma conexão, fazendo parte do universo Cosmere. Há até um personagem, Hoid, que faz aparições em vários livros de diferentes séries. Aqui aparece como o personagem Wit e pode ser visto, talvez,  como uma espécie de voz do autor, ou talvez como um recurso de metalinguagem na função narrativa…

Bem, o livro também é enorme, como o primeiro, tendo mais foco no aprofundamento de personagens do que em avanço da trama. Toda a trama presente no final do primeiro livro continua presente e se desenvolvendo, e, o autor ainda acrescenta novos elementos. E ele consegue promover um clímax no final do livro ainda mais grandioso que no primeiro. Fica uma impressão de crescendo na série, o que é muito bom. A sensação de lentidão que havia em certos trechos do primeiro livro é reduzida neste, e temos mais forte aquela sensação de ter que continuar virando as páginas para ver o que acontece depois.

Quanto a ambientação e alguns temas/conflitos de natureza social que permeiam a trama, é bem visível que o preconceito e sexismo existente na cultura dos Alethi (na qual se passa grande parte da trama), não é algo que universal no mundo de Roshar. É interessante ver que o status quo é questionado pelos personagens e situações da trama e que possivelmente veremos alguma mudança social maior acontecendo nos próximos volumes.

É um tanto difícil falar mais sobre esse livro sem correr o risco de spoilers, mas podemos dizer que o consegue promover uma boa combinação de guerra, política, visão acadêmica, religião, conspirações, assassinos, magia, deuses, etc, sem ser exatamente uma bagunça.

Outra coisa legal que vale mencionar é a arte do livro. É muito boa e ajuda a visualizar algumas das criações do autor que seriam muito difíceis de visualizar apenas a partir das descrições. E tudo isso inserido logicamente dentro da trama, pois Shallan é uma acadêmica, e artista, obcecada por desenhar e representar tudo que está ao seu redor. E ainda mais, o desenvolvimento de seus poderes torna-se ligado à sua habilidade artística. Então as ilustrações fazem sentido na trama, não é apenas como se alguém tivesse contratado um artista para ilustrar um livro, é o personagem que o faz de acordo com a lógica da trama. (de novo aqui a metalinguagem)

Minha impressão final: até aqui a série paga muito bem o tempo investido na leitura. O autor é realmente ambicioso e muito bom. Sinta-se com sorte se puder ler esses dois livros, mas prepare-se para esperar bastante para ler as continuações. Uma sensação que pode surgir é que a despeito do tamanho enorme do livro, você vai continuar querendo ler, simplesmente por não haver nenhuma outra coisa mais divertida para fazer. Depois de terminar e começar outro livro (não tão bom) fica aquele desejo de que Words of Radiance  fosse maior e não tivesse acabado.

The Way of Kings – Brandon Sanderson

Brandon Sanderson é certamente um expoente da literatura fantástica atual. Em sua nova série, The Storlight Archives, ocorre num novo mundo de fantástico que é revelado aos leitores gradualmente através de uma trama que envolve um conjunto de personagens sólidos e memoráveis.  Especialmente após a leitura do segundo volume desta série, Words of Radiance, ficam evidentes semelhanças de alguns aspectos estruturais que se mostram na trilogia Mistborn, que começou a sair no Brasil pela editora Leya. Certamente as séries de Sanderson estão entre as melhores obras de fantasia que venho lendo ultimamente… Recomendo muito!

O próprio autor diz que “Words of Radiance foi escrito como uma carta de amor ao gênero de fantasia épica. Continua The Way of Kings e é o tipo de livro atinge o potencial que sempre sonhei para fantasia épica”.

Mas vamos ao primeiro livro da série….

The Way of Kings

Este livro tem mais de 1000 páginas e é o primeiro de uma série (prometida) de dez livros. Então, dá para esperar muita coisa pela frente. Se passa no mundo de Roshar, um lugar assolado por tempestades mágicas onde já se travaram batalhas entre a humanidade e um terrível inimigo há muito desaparecido e que deixou em seu lugar apenas lendas.

Toda a criação de mundo é vívida, sendo Roshar um mundo de fauna e flora peculiares onde existem animais comuns como cavalos e galinhas, mas também outras criaturas fantásticas, como enguias voadoras e crustáceos gigantes. Alguns que servem de animais de carga, e outros que são temidos predadores. O clima é também um elemento relevante na trama (como eram as brumas da série Mistborn).

O sistema de magia também, como em outras obras de Sanderson, é bem elaborado, interessante e consistente. Uma das expressões do poder mágico na obra se materializa nas armaduras e espadas mágicas através das quais, poucos habitantes deste mundo conseguem expressar superpoderes que vão além dos tipicamente vistos em outras obras de fantasia. A própria descrição (e desenhos que vemos nas obras) destes artefatos parecem advir do gênero de super-heróis, ou dos animes.

O começo do livro é um pouco devagar, pois os fatos do mundo, seu funcionamento e problemas, são introduzidos juntamente com os personagens principais da trama. Dá para perceber que o primeiro livro é usado para estabelecer a base para o desenvolvimento da série. Há tramas e subtramas de cada um dos personagens, que vão eventualmente se entrelaçando e mais perto do final, o ritmo da estória fica frenético, do tipo, não consigo parar de ler isto, mas vale um pouco de paciência até chegar lá. Mas não digo isso como algo ruim, o livro é progressivamente envolvente e imersivo.

Uma das qualidades do autor são suas cenas de ação. Há muita ação no livro e de boa qualidade. Mas ao mesmo tempo, há muitos outros temas psicológicos que são desenvolvidos. Religião x ateísmo, preconceito, sexismo, destino, perseverança, confiança, liderança, etc.

Cada um dos personagens possui um campo de conflitos distintos e que os torna interessantes de se acompanhar. Há três protagonistas, Kaladin, Shallan e Dalinar, mas também um monte de outros personagens importantes que aparecem nos interlúdios e em torno dos protagonistas. O foco principal é em Kaladin, um escravo que sofre maus bocados, mas que de alguma forma luta contra o destino ruim que caiu sobre si. Dalinar é uma mistura de nobre e general e ele Kaladin mostram uma faceta dominante na estória: o militarismo. Há uma grande e extensa guerra em andamento e muito do que ocorre naquela região do mundo gira em torno disso. Shallan é acadêmica jovem da baixa nobreza que traz à trama temas fora do foco militar, mas que também evidencia que há uma outra dimensão de problemas que poderão vir à tona e que só estão sendo considerados no planos de pesquisas acadêmicas.

Haveria muito mais a falar sobre esse livro… A mensagem principal seria: é um livro de fantasia muito bom! Mas é melhor parar por aqui, antes que apareçam spoilers….

Oráculo Esquecido – Versão Beta

Oráculo Esquecido BetaOlá leitores!

Finalmente está chegando o momento do lançamento do Oráculo Esquecido. Tenho recebido muitas mensagens de leitores da série querendo saber da data de lançamento. Não consigo dizer isto ainda…

Para quem não quiser esperar, disponibilizarei uma versão beta a ser enviada por e-mail. Para pedir o seu, basta comentar este post informando se deseja o livro em formato ePub ou mobi (kindle).

Estejam cientes da possibilidade da versão final sair com algumas alterações, e mais lapidada, se comparada com a versão beta.

Novidades da Trilogia do Novo Elo

Olá pessoal, hoje disponibilizei uma nova versão do livro Maré Vermelha. Ela conta com algumas novas correções no texto e incluí uma imagem de um mapa das regiões mencionadas no livro.

capa livro maré vemelha

Você pode baixar o livro para ler em seu dispositivo favorito aqui.

Capa Olhos Negros

Para você que acabou de chegar, comece com Olhos Negros.

 

 

Recentemente terminei o segundo manuscrito de Oráculo Esquecido e já sigo no trabalho do terceiro manuscrito. :-) Ao final do segundo manuscrito contabilizei 678 páginas, 205.324 palavras, 120 capítulos e mais alguns mini-capítulos (epílogos).  Ficou bem maior que os livros anteriores, mas pretendo enxugar um pouco o texto para o lançamento, em breve.

Vejam o mapa incluído em Maré Vermelha:

Mapa

Mapa

1356 – Bernard Cornwell

1356 capa

1356

Bom, certamente não é um livro de fantasia, mas certamente esta ficção histórica tem afinidade com muitos títulos de fantasia que tratam em sua temática o enfrentamento de forças militares no período medieval, como é o caso de O Senhor dos Anéis e das Crônicas de Gelo e Fogo (Guerra dos Tronos).

Este livro trata de uma versão ficcional da Batalha de Poitiers, uma importante batalha ocorrida no ano de 1356 no contexto dos longos conflitos ocorridos entre França e Inglaterra (Guerra dos 100 Anos). Traz como protagonista (a volta de) Thomas de Hookton, um arqueiro Inglês que foi elevado ao status de cavaleiro durante a “série do Graal” composta pelos livros “O Arqueiro”, “O Andarilho” e “O Herege”. Bem, não quer dizer que o livro trata apenas desta batalha, esta na verdade é o ponto culminante da trama. Esta se desenha desde o início e envolve uma relíquia da igreja, a espada La Malice, apelido dado à espada que teria pertencido a Pedro, discípulo de Jesus. Também é citada em determinada passagem bíblica, portanto, um item sagrado para a Igreja Católica.

Fora a questão da batalha, a trama está centrada no mistério em torno do paradeiro e origem da espada, mas também tem outras tramas com elementos de romance, intriga e vingança que envolve uma gama de personagens interessantes de diversas naturezas, tais como, frades, padres, reis, senhores feudais, homens do grupo mercenário de Thomas, os Hellequins, nobres cavaleiros, e até guerreiros e nobres escoceses. Esse elenco é bem caracterizado e o autor possui habilidade para fazer o leitor detestar alguns deles, simpatizar ou torcer por outros na medida em que a trama se desenvolve.

Bernard Cornwell é britânico e já publicou um grande número de romances históricos com aspecto militarista. É muito habilidoso em suas descrições de cenários, construção de personagens e principalmente, na forma que descreve e reconstrói confrontos armados, diria até, que ele é didático, pois ensina ao leitor não habituado com os termos de batalha, armas, armaduras e seu funcionamento e o próprio contexto histórico que circunda a trama. Não é para menos, visto que ele é um renomado professor de história.

Gostei muito deste livro, certamente o primeiro de muitos a ler deste habilidoso autor. Uma leitura recomendada, sem sombra de dúvida!

The Tombs of Atuan – Ursula K. Le Guin

The Tombs of Atuan

Este é o segundo livro da série Earthsea. É a estória da jovem Tenar, ou Arha, a reencarnação da sacerdotisa chefe culto aos “Não nomeados (Nameless Ones)”, uma religião quase esquecida. Sua tarefa de vida é ser a guardiã das Tumbas de Atuan. E para os que leram o primeiro livro da série é oportunidade de reencontrarmos o mago Ged, mais conhecido como Sparrowhawk, que figura como personagem secundário na trama. (Leia sobre A Wizard of Earthsea)

É um livro que começa com um passo lento, e que tende a se manter por quase toda a narrativa. Mas isto não significa que seja entediante. Se passa praticamente numa única locação, isolada e claustrofóbica. A autora estabelece uma atmosfera introspectiva e sombria. Um livro que mostra o estilo de vida reservado das sacerdotisas que guardam os velhos rituais, conhecimentos e as tumbas, em si.

Ahra é confiante para alguns assuntos, mas muito insegura para outros e suas dúvidas e incertezas são projetadas de algum modo aos leitores. No decorrer da narrativa, se mostra uma heroína forte que descobre maneiras de confrontar graves questões. Ela foi doutrinada numa religião dura e antiga e muitos de seus preceitos colocam-na em dúvida sobre as decisões que deve tomar e como deve agir. É um tipo de história na qual a protagonista evolui seu entendimento sobre as coisas e sobre sua própria vida.

Como pano de fundo para a vivência da jovem está a terra de Earthsea, com sua magia poderosa, porém contida e rara, relacionada ao verdadeiro nome das coisas. Desta vez, estamos em uma das ilhas do império Kargish, mais especificamente, num templo arruinado no meio de um deserto e longe da civilização.

Se comparado ao primeiro livro, este é mais sombrio e ainda, há um troca de polarização de gênero. O primeiro fala de um universo masculino enquanto o segundo é predominantemente feminino. Mas há antagonistas bem interessantes, tanto humanas quanto sobrenaturais. Não é um livro de fantasia do tipo, espada e feitiçaria, com inimigos a derrotar e missões a cumprir. Na realidade Ged tem uma missão, que é recuperar o a metade perdida do anel de Erreth-Akbe, mas sua missão não é o foco da estória e sim a jornada interior de Tenar.

É uma bom livro de fantasia que, devido ao contraste com o primeiro livro, faz pensar que qualquer coisa pode acontecer nos próximos livros da série.

Os livros são: A Wizard of Earthsea (1968), The Tombs of Atuan (1971), The Farthest Shore (1972), Tehanu: The Last Book of Earthsea (1990) e The Other Wind ( 2001). Também foram produzidos uma mini-série de TV (http://www.imdb.com/title/tt0407384/) e um anime, Tales from Earthsea, do Studio Gibli, dirigido por Goro Miyazaki (filho de Hayao Miyazaki diretor de A viagem de Chihiro, Castelo Animado, entre outros).

Leia mais sobre Earthsea em: http://en.wikipedia.org/wiki/Earthsea

Veja um mapa de Earthsea: http://www.ursulakleguin.com/EarthseaMaps/

Mais sobre a autora em: http://www.ursulakleguin.com/UKL_info.html

Swords and Deviltry – Fritz Leiber

Swords and DeviltryRecentemente falamos do autor estadunidense Fritz Leiber, agora vejamos o título “Swords and Deviltry”, mencionado na lista de 100 livros de fantasia de leitura mandatória (100 Must Read Fantasy Novels) de Stephen E. Andrews e Nick Rennison.

Este título é uma coleção de contos com os memoráveis personagens Fafhrd e Gray Mouser. Os contos reunidos foram publicados entre 1957 e 1970.

Vamos aos contos.

Induction (1957)

Na verdade não é um conto, mas uma pequena introdução ao mundo de Nehwon, uma breve visão de sua geografia, sua mais famosa cidade, Lankhmar, e seus dois célebres personagens, Fafhrd e Gray Mouser.

The Snow Women (1970)

Esta é a estória da origem de Fafhrd. Nas regiões geladas, vive de modo praticamente isolado, o clã matriarcal do herói. Fafhrd anseia por escapar dali em busca da civilização. Ele encontra a resistência de sua própria mãe, uma feiticeira, mas é estimulado a partir pelos encantos da dançarina que faz parte de uma trupe itinerante que conhece em uma aldeia próxima de seu lar.

The Unholy Grail (1962)

Analogamente, esta é a estória de origem do Gray Mouser, mas antes de ser chamado assim, era um aprendiz do feiticeiro Glavas Rho, e era conhecido apenas como Mouse. Quando seu mestre é assassinado, Mouse busca vingança contra o cruel duque Janarrl. A filha do duque, Ivrian, que tinha contato prévio com ele e seu mestre, pode ser a chave para Mouse escapar das torturas de Janarrl.

Ill Met in Lankhmar (1970)

Originalmente esta novela ganhou os prêmio Nebula (1970) e Hugo (1971). Narra o primeiro encontro e aventura conjunta da dupla. O escritor William Gibson já comentou que “(…) as estórias de Fafhrd e do Gray Mouser são um gênero em si (…)” e tive essa sensação, lendo mais meia dúzia dos estórias do volume “Swords Against Death”. Para quem conhece, possuem um clima que lembra bem aventuras de RPG. Muitas de suas estórias foram escritas antes mesmo da invenção dos jogos. Há muito contraste de clima neste conto, começando com pancadaria, passando por passagens bem humoradas até chegar em tonalidades sombrias e inesperadas.

Enfim, essa antologia reúne três estórias, mas penso que a diversão começa de fato na continuação da série, pois já estou terminando a segunda coletânea e sensação que tive é que as aventuras vão ficando mais interessantes à medida em que vamos conhecendo mais os personagens e o mundo de Nehwon e que nos familiarizarmos com as relações e referências entre as estórias.

Fritz Leiber

Fritz LeiberFritz Leiber (Jr.) (1910-1992) foi um importante escritor estadunidense dos gêneros de fantasia, horror e ficção científica. Filho do ator Fritz Leiber, ele também atuou em filmes e escreveu alguns roteiros para o cinema.

Fafhrd e Gray Mouser

É muito conhecido por sua série de fantasia heroica protagonizada pela dupla Fafhrd e Gray Mouser. Os contos iniciais foram eventualmente reunidos sob nome da série “Swords” (Espadas). Assim foram publicadas as coleções “Swords and Deviltry” (1970), “Swords Against Death” (1970), “Swords in the Mist” (1968), “Swords Against Wizardry” (1968), “Swords and Ice Magic” (1975), “Farewell to Lankhmar” ou “The Knight and Knave of Swords” (1988) e “Swords Against the Shadowland” (2012). Houve também algumas adaptações para quadrinhos como a série que saiu pela Dark Horse Comics.

Ilustração por Clyde Caldwell (1991)

Fafhrd e Gray Mouser numa ilustração de Clyde Caldwell (1991)

Ele foi indicado inúmeras vezes e em diversas categorias aos prêmios Hugo, Nebula, Locus, World Fantasy entre outros. Veja o quadro abaixo com suas premiações:

Ano

Prêmio

Título

Categoria

1958

Hugo

The Big Time

Melhor romance

1962

Hugo

Prêmio especial

1965

Hugo

The Wanderer

Prêmio especial

1968

Hugo

Gonna Roll the Bones

Melhor noveleta

1968

Nebula

Gonna Roll the Bones

Melhor noveleta

1970

Hugo

Ship of Shadows

Melhor novela

1971

Hugo

Ill Met in Lankhmar

Melhor novela

1971

Nebula

Ill Met in Lankhmar

Melhor novela

1975

Gandalf

Grão mestre da fantasia

1976

British Fantasy

The Second Book of Fritz Leiber

Melhor conto

1976

Hugo

Catch That Zeppelin!

Melhor conto

1976

Nebula

Catch That Zeppelin!

Melhor conto

1976

World Fantasy

Conjunto da obra (Life Achievement)

1976

World Fantasy

Belsen Express

Melhor conto

1978

World Fantasy

Our Lady of Darkness

Melhor romance

1980

British Fantasy

The Button Molder

Melhor conto

1981

Balrog

Prêmio especial

1981

Nebula

Prêmio de Grão Mestre

1987

Bram Stoker

Conjunto da obra (Life Achievement)

A noveleta vencedora do Hugo e Nebula em1971, “Ill Met in Lankhmar” faz parte da coleção “Swords and Deviltry” que configura na lista 100 Must Read Fantasy Novels de Stephen E. Andrewsand e Nick Rennison. Sendo assim, este um artigo da sequência “Must Read Fantasy Novels”.

Logo mais disponibilizaremos uma resenha de  “Swords and Deviltry”.

Em suas obras de ficção científica, The Wanderer, recebeu prêmio Hugo (especial) em 1965, mas é interessante ver que há críticas a uma premiação no Hugo ser referência para bons livros, como podemos ver na opinião expressa por Josh Wimmer no artigo intitulado “Sorry, Fritz Leiber — The Wanderer Is Terrible”. Visão semelhante é expressa no artigo Why on earth did Fritz Leiber win the Hugo? do site The Guardian.

The Big TimeO romance The Big Time, vencedor do Hugo em 1958, é uma história com temática de viagens no tempo na qual as fações rivais “Spiders” e “Snakes” estão envolvidas num conflito sem fim (Change War) para determinar o futuro. Neil Gaiman comenta este romance e diz que é uma uma história notavelmente sofisticada, incomum para a ficção científica publicada naquele período. Contém muitos do temas preferidos por Leiber como Shakespeare e o teatro, identidades alternativas, alcoolismo, sadomasoquismo, Alemanha e o Tempo. É engraçado, inteligente ao brincar com grandes temas em um minúsculo palco e demanda muito de seus leitores. Assim não é uma surpresa que tenha sido premiado com o Hugo em 1958, ainda que, mais de cinquenta anos depois, continue um romance relativamente desconhecido.

Our Lady of Darkness (1977) está entre seus romances de horror mais conhecidos, e como muitos de seus trabalhos finais, são autobiográficos no sentido de relatar sua luta na vida real contra a depressão e o alcoolismo.

O autor correspondeu-se com H. P. Lovecraft, o qual encorajou e influenciou seu desenvolvimento literário; sob influência deste contato escreveu a novela de horror, The Dealings of Daniel Kesserich (1936; publicada após sua morte pela Tor, em 1997).

 Sword and Sorcery

O termo “Sword and Sorcery” começou a ser utilizado após uma ocasião em 1961 quando o escritor e editor, Michael Moorcock, requisitou um termo para descrever o subgênero de fantasia em que heróis “musculosos” entravam em conflito com uma variedade de vilões, principalmente feiticeiros, bruxos, espíritos malígnos e outras forças sobrenaturais. Fritz Leiber sugeriu “Sword and Sorcery” e o termo pegou.

Sua obra é vasta e difícil de cobrir num artigo de introdução como este, especialmente para quem leu apenas dois de seus livros até então. Para se ter uma ideia mais completa, vale visitar a página dedicada ao autor no site Fantastic Fiction: http://www.fantasticfiction.co.uk/l/fritz-leiber/

Outros artigos desta série:

Duplo Fantasia Heroica 2 – Christopher Kastensmidt e Roberto de Sousa Causo

302-588762-0-5-duplo-fantasia-heroica-2-a-batalha-temeraria-contra-o-capelobo-encontros-de-sangueDuplo Fantasia Heroica 2

Há quase um ano, falamos sobre o primeiro livro desta série da Editora Devir que nos trás histórias de Espada e Feitiçaria com um aroma tupiniquim. A dupla de autores, Christopher Kastensmidt e Roberto de Sousa Causo continuam a desenvolver suas narrativas das sequencias “A Bandeira do Elefante e da Arara” e da “Saga de Tajarê”.

A Batalha Temerária contra o Capelobo

Anteriormente, em “O Encontro Fortuito de Gerard van Oost e Oludara”, em  fomos apresentados à dupla, Gerard Van Oost, um holandês que veio se aventurar no Brasil, e Oludara, um ex-escravo africano, também recém chegado em nossas terras.

Agora, a dupla já viaja explorando este Brasil selvagem e fantástico portando a Bandeira de exploradores com os símbolos do Elefante e da Arara. Nesta nova aventura, a dupla resolve buscar aconselhamento sobre como sobreviver nas terras selvagens. Procuram por uma tribo de índios Tupinambás, mesmo sendo essa estratégia um tanto perigosa. E adiante, como uma forma de se integrarem de alguma forma à tribo, surge o desafio de confrontarem uma terrível criatura fantástica pertencente ao folclore do Pará e do Maranhão, o Capelobo.

O texto do autor, mantém suas características marcantes, a fluidez e evocação de imagens vívidas. As personagens continuam a ser desenvolvidas de maneira cativante e vamos aprendendo a gostar um pouco mais da dupla, suas visões de mundo e a maneira pela qual enfrentam as situações difíceis sempre com um toque de esperteza e bom humor. Soma-se ao time, a índia Tupinambá, Arani, que ao que parece, veio para ficar nas histórias desta sequencia. Vale mencionar que o embate contra o Capelobo em si é bastante instigante constituindo ponto forte desta segunda narrativa.

Encontros de Sangue

Esta noveleta é continuação da saga que teve inicio em “A Sombra dos Homens – A Saga de Tajarê” e depois em “A Travessia”.

A esposa de Tajarê, a sacerdotisa viking Sjala, servidora do deus Loki, continua sua jornada de retorno ao lar navegando pelo Grande Rio. Nesta narrativa, o herói Tajarê está ausente, mas seus irmãos, Luantá e Suantã seguem viagem junto a Sjala, Uilamuê, o pai de Tajarê, e o sábio e poderoso pajé Sotowái.

Durante a jornada, conhecemos o passado de Sjala. Uma parte da narrativa que inclui elementos da mitologia nórdica que contrastam com a mitologia indígena e folclórica brasileira. Uma combinação de mitologias inusitada, de sabor exótico e pouco explorada por outros autores. As Icamiabas (amazonas de Atlantônia) voltam a aparecer, há confrontos com criaturas fantásticas denominadas Igpupiaras e a história evolui para mostrar o prenúncio de uma guerra a ser provocada pelo ambicioso Tupamacuia, um dos chefes da Aldeia do Coração da Terra.

Para provocar no leitor sensação de imersão no universo fantástico do Amazonas prévio à colonização européia, o autor usa recursos de linguagem para fazer a narrativa soar de algum modo indígena e/ou refletir a mentalidade e visão de mundo desta cultura. Em alguns diálogos extensos, isto ainda pode representar alguma dificuldade de entendimento (precisei de ler alguns trechos duas vezes, só para ter certeza), mas houve um ganho de fluidez na leitura em relação às duas narrativas anteriores, visto que agora este “indionês” ficou restrito apenas às falas das personagens.

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Aguarde mais notícias sobre a série Duplo Fantasia Heroica, pois já estamos com o terceiro livro aqui que trás mais duas noveletas. Infelizmente, a saga de Tajarê não aparece nesta sequência. Mas aguarde! Fizemos um contato com o autor que nos revelou que está a escrevendo a noveleta, “A Terra Outra”, que narra o que aconteceu a Tajarê depois do seu desaparecimento em “A Travessia”. Revela também que após terminar essa história, ficarão faltando apenas duas para fechar um segundo livro: “A Sombra da Espada”. Ficamos animados com as notícias, pois esta saga apresenta uma mistura única de elementos e merece mesmo ser continuada!

Viste os sites dos autores:

Christopher Kastensmidt – http://www.eamb.org

Roberto de Sousa Causo – http://robertocauso.com.br/